terça-feira, 11 de junho de 2013

arroz pra passarinho: MEMORIA

arroz pra passarinho: MEMORIA:   Memória Amar o perdido deixa confundido este coração. Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do Não. As coisa...

MEMORIA

  Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

sábado, 11 de maio de 2013

SE AS COISAS FOSSEM MÃES



Se as coisas fossem Mães             Sylvia Orthof


Se a lua fosse mãe, seria mãe das estrelas,
O céu seria sua casa, casa das estrelas belas.
Se a sereia fosse mãe, seria mãe dos peixinhos,
O mar seria um jardim e os barcos seus caminhos.
Se a casa fosse mãe, seria a mãe das janelas,
Conversaria com a lua sobre as crianças-estrelas,
Falaria de receitas, pastéis de vento, quindins,
Emprestaria a cozinha pra lua fazer pudins!
Se a terra fosse mãe, seria mãe das sementes,
pois mãe é tudo que abraça, acha graça e ama a gente.
Se uma fada fosse mãe, seria a mãe da alegria.
Toda mãe é um pouco fada... Nossa mãe fada seria.
Se uma bruxa fosse mãe, seria mamãe gozada:
Seria a mãe das vassouras, da Família Vassourada!
Se a chaleira fosse mãe, seria a mãe da água fervida,
Faria chá e remédio para as doenças da vida.
Se a mesa fosse mãe, as filhas, sendo cadeiras,
Sentariam comportadas, teriam “boas maneiras”.
Cada mãe é diferente: Mãe verdadeira, ou postiça, mãe-vovó, mãe titia,
Maria, Filó, Francisca, Gertrudes, Malvina, Alice, toda mãe é como eu disse.
Dona Mamãe ralha e beija,
Erra, acerta, arruma a mesa, cozinha, escreve, trabalha fora,
Ri, esquece, lembra e chora, traz remédio e sobremesa.
Tem até pai que é “tipo-mãe”...

domingo, 7 de abril de 2013

A Fome do Fogo.




 Anda a ler, vagarosamente, no ritmo do si-mesma, “Correspondências de Clarice Lispector”.
 Gosta de cartas. Tanto de lê-las quanto de recebê-las.
 Numas,  sujeito ,em outras, objeto. Vai de mim e volta para mim.
 São os lugares que ocupa: Ego mei mihi me me.
 Acha isso curioso.
 Lamenta o destino de quase todas as cartas recebidas ou remetidas.
 Quanto se perdeu ali?  Perdeu-se tanto!
 O fogo queimou? Não apagou?
 Apagaram-se pelo fogo as labaredas....
 Imagina-se lendo a linguagem das labaredas. Somente isso.
As labaredas, que  deseja traduzir, desconhecem  limitações da linguagem.
Limitações fronteiriças a um lugar outro, fronteiriço ao  incognoscível, ao estrangeiro.
Uma vez lhe foi dito: destruir as cartas  pela possibilidade de profanação.
E por assim ter pensado, fez delas um fogaréu , que até espanto  causou.
Não entendera ainda que só se profanavam os santos.
Queimou-se o sagrado  já sido?
Terá cometido heresia?
A fome do fogo: festança de fantasmas faceiros...
      (tão apenas e somente)

segunda-feira, 25 de março de 2013

O jarrinho





Levava eu um jarrinho
P'ra ir buscar vinho
Levava um tostão
P'ra comprar pão:
E levava uma fita
Para ir bonita.

Correu atrás
De mim um rapaz:
Foi o jarro p'ra o chão,
Perdi o tostão,
Rasgou-se-me a fita...
Vejam que desdita!

       Se eu não levasse um jarrinho,
Nem fosse buscar vinho,
                 Nem trouxesse uma fita
            Pra ir bonita,
              Nem corresse atrás
                  De mim um rapaz
                  Para ver o que eu fazia,
                    Nada disto acontecia.

Fernando Pessoa